|
“Uma comunidade conectada é capaz de promover os mais diferentes e mais profundos processos de mudança”, ressalta a psicóloga Lourdes Alves de Souza, integrante da equipe de Desenvolvimento Social do Senac São Paulo. Elaboradora de cursos e formadora de multiplicadores das metodologias que embasam os programas da área, na entrevista abaixo, Lourdes detalha a metodologia proposta pelo Programa de Desenvolvimento Local para América Latina e Caribe e revela de que forma ele pretende tornar-se referência como um pólo aglutinador e disseminador de informações, conhecimento, estudos e pesquisas sobre o tema. Confira.
Qual a importância e a contribuição da metodologia de Indução ao Desenvolvimento Local? Lourdes Alves – O Senac acha importante trabalhar com esta metodologia porque ela tem início na formação e no investimento em capital social, ou seja, os atores sociais de uma determinada comunidade devem estar trabalhando conjuntamente para que desenvolvimento daquele local seja possível. Nossa premissa não é a partir do desenvolvimento econômico, como muitas outras, por isso os passos da metodologia iniciam-se pela formação da rede, do agrupamento de pessoas e organizações que querem pensar o processo de desenvolvimento local. Na medida em que fomos avançando no entendimento do conceito e também na metodologia, hoje, com muita tranquilidade entendemos que formar redes, facilitar o processo de conexão entre organizações e pessoas de uma determinada localidade, já é em si o próprio desenvolvimento. Porque aquelas pessoas motivadas, trabalhando com base em relações de confiança e que buscam objetivos comuns são capazes de promovê-lo. Apostamos que o investimento em capital social induz o processo de desenvolvimento local, portanto o primeiro passo é formar capital social.
Quando se fala em rede social se fala em juntar organizações, sociedade civil organizada. E a governança não dependeria de organizações, seria composta por pessoas físicas que vivem no lugar. Qual a diferença na metodologia, para não confundir rede social com governança? Lourdes Alves – A rede social é um recurso, uma estratégia para juntar as pessoas e as organizações de uma determinada localidade: os pequenos empresários, as organizações sociais, o poder público. Primeiro, cria-se um estrutura de rede, até para discutir e vivenciar o conceito, entender a importância, redescobrir. Digo redescobrir porque a rede já existe, o que acontece é que em alguns momentos esses fios de conexão ficam um pouco obstruídos. As pessoas estão em um mesmo bairro, mas não estão olhando umas para as outras, estão lá fazendo o seu trabalho e não percebem a possibilidade de conexão com outras que estão fazendo a mesma coisa ou que completem aquilo que ela precisa fazer. Quando falamos do bairro, falamos da governança porque são as pessoas: a dona Maria, o seu Zé, o seu João... que vão vivenciar o processo da metodologia. Eles vão passar pela Visão de Futuro, farão um Diagnóstico da sua localidade de uma forma coletiva. A metodologia tem um outro paradigma: de que o desenvolvimento é endógeno, é de dentro para fora. Então, são as próprias pessoas que vão empreender o desenvolvimento do seu local; é a governança, o governo daquele local. A rede vai auxiliar, assessorar, acompanhar, mas não será ela que fará o desenvolvimento do local. Em algumas cidades do interior do Estado de São Paulo, o processo de desenvolvimento local está acontecendo em vários bairros, como em Limeira, em oito. Para esses oito, a rede é fundamental em termos de criar cultura, de pensar que é possível vivenciar, sobretudo, a experiência de que os diferentes atores de uma sociedade podem cooperar para a transformação, a melhoria daquele local. É possível que eles se juntem com objetivo de realizar projetos de interesse comum, coisas que não conseguiriam fazer sozinhos. Isso tudo é um aprendizado na rede. Em nossa sociedade vivenciamos pouca cooperação. A rede é um espaço para exercitar isso até que nossos paradigmas e nosso modelo mental mudem. Ao invés de competir com as organizações que estão na minha localidade, posso cooperar com elas e estabelecer outro tipo de relação. Desenvolvimento depende desta mudança de paradigma e se parto do pressuposto de fazer com outras pessoas, de que é possível confiar, estabelecer relações e conexões, seguramente vou fazer proposições e oferecer o que tenho de contribuição para o processo.
Quando você fala a governança do bairro X, por exemplo, refere-se aos cidadãos, moradores daquele local, independente da relação deles com uma organização que faça ou não parte da rede ali constituída? Lourdes Alves – É isso. E aí tem uma coisa importante que é o sentimento de pertencimento. Eu estou fazendo algo para o meu bairro, eu sou o governo do meu bairro, portanto eu posso identificar problemas, mas também sou capaz de, junto com outras pessoas, solucioná-los ou identificar a solução para eles. Já se sabe estatisticamente que uma localidade quando tem governança diminui o grau de violência. A vizinhança está mais próxima, mais viva, interagindo mais. Então as pessoas se acompanham, se protegem, sabem o que está acontecendo. Um convida o outro para uma festa, para uma atividade. Promove-se outra dinâmica para aquele local quando as pessoas sabem que depende delas também a mudança e que elas não estão sozinhas, o recurso está ali.
Quando elas estão construindo essa Visão de Futuro não parece mais comum que olhem primeiro o lado negativo para depois pensar no cenário positivo, que normalmente é construído com base na negação do primeiro? Lourdes Alves – Na própria metodologia da investigação apreciativa a condução desse processo é que as pessoas possam pensar a localidade onde vivem já melhorada, como se depois de dez anos elas fossem fazer uma visita nesse lugar. Elas não partem de um processo daquilo que precisa ser modificado, vão imaginar as transformações possíveis em dez anos, e realmente as pessoas são muito certeiras, sabem o que precisa ser modificado. Por exemplo, em um bairro afastado da cidade, as pessoas precisavam atravessar uma avenida bastante movimentada em que aconteciam muitos acidentes. E elas apontaram a idéia de um viaduto para aquele trecho para daqui dez anos. Como as pessoas pensam lugares onde não existem oportunidades de lazer e equipamentos de cultura? As pessoas sonham e conseguem visualizar que o terreno baldio depois desses anos é um centro poliesportivo ou um teatro ou um cinema. Enfim, a própria metodologia leva as pessoas a imaginarem o sonho já realizado.
Existe alguma pesquisa acompanhamento do processo? Dentro da metodologia, as pessoas são motivadas a acompanhar a mudança por meio de instrumentos de medição? Lourdes Alves – Em termos estatísticos não, mas tem uma percepção da melhoria da convivência entre as pessoas e quando uma comunidade começa a conviver, ou seja, viver junto, e aí outras áreas da ciência poderiam responder a isso, asseguro que você tenha ali um ambiente de mais empatia, afetividade, de comunidade, de uma comum unidade. É uma sensação de estarmos todos num mesmo barco, de que precisamos cuidar e aí já não sou eu mais a cuidar da praça, mas todos. Não é só mais a diretora que cuida da escola, mas a comunidade, que percebe aquela escola como importante, vai dar ideias e se integra. Esse desenvolvimento é mais sutil, não é uma coisa bombástica, de dizer “aqui acabou toda a pobreza e toda miséria”. Sabemos que tem dimensões para serem alcançadas. Essa dimensão com a qual estamos trabalhando transforma, realiza projetos, vai nessa linha do empoderamento de pessoas, de fortalecer as relações, de identificar esses fios condutores, que é a rede, a conexão. Uma comunidade conectada é capaz de promover os mais diferentes e mais profundos processos de mudança.
Sobre o nome “Indução ao Desenvolvimento Local”, por que indução? Lourdes Alves – Porque a metodologia é uma proposta, uma proposição que pode induzir, no sentido de ser um caminho. Você propõe um caminho. Quando a gente induz alguma coisa a gente cria alguns atrativos para que as pessoas escolham caminhar naquela direção. Então, são etapas que vão induzindo ao processo. A gente não chega nas comunidade e finca uma bandeira e diz: “vamos começar o processo de desenvolvimento local”. A gente induz no sentido que é uma proposta encantadora e que vai de encontro também ao desejo das comunidades de avançar, de fazer juntos, de desenvolver a sua própria cidadania, de participar. Diferente do que muita gente imagina de que as pessoas não querem fazer nada, de que elas estão cada uma cuidando da sua própria vida, tem muita gente cuidando da sua própria e cuidando dos outros também. E elas estão interessadas nesse tipo de movimento, de mentalidade nova que se cria. Aqui em São Paulo, temos alguns exemplos: o Jardim Ângela, na zona sul, foi manchete por muito tempo por ser uma região violenta, perigosa de se viver. Muitas ações foram implementadas ali, inclusive o Senac foi uma das instituições que levou contribuições por meio do Programa Rede Social. O que se tem hoje é uma mudança nesse cenário, sobretudo de violência, uma diminuição significativa nesses números a partir de várias ações de redes. Todos processos coletivos, não uma organização sozinha, um conjunto de ações coletivas que hoje faz com que a zona sul tenha um outro cenário perceptível no cotidiano das pessoas que lá vivem.
Quando o Senac iniciou esta atuação pelo desenvolvimento local? Hoje, qual local você destacaria como o que apresenta o processo mais avançado? Lourdes Alves – Nossa metodologia com todos esses passos é recente, de 2004. São quatro passos fundamentais: a própria rede; a Visão de Futuro, ou seja, o sonho dessa rede; o Diagnóstico Participativo, um processo de conscientização, de responsabilização dos envolvidos, de conhecimento da realidade que ele está querendo transformar; e o Plano de Desenvolvimento Local, em que se faz uma agenda das prioridades e projetos para chegar ao sonho. São poucos anos, mas de boas experiências. São mais de 50 locais vivenciando o processo. De todos, o que está mais avançado é Águas de São Pedro (para conhecer mais sobre o processo de desenvolvimento local do município, clique aqui), um dos menores municípios do Brasil, tem aproximadamente 2 mil pessoas vivendo lá. Eles formaram a rede, fizeram Visão de Futuro, Diagnóstico e compartilharam isso com a cidade inteira. Conseguiram validar esses passos com toda a comunidade e negociar participação junto à prefeitura. Acredito que Águas de São Pedro está vivendo o primeiro processo numa perspectiva muito boa, de fazer uma grande virada que para aquele município vai ser muito importante. Tenho certeza de que vamos ver coisas bastante inovadoras olhando para Águas de São Pedro.
De que maneira o programa dará conta de toda a dimensão América Latina, ampliando a atuação do Senac no desenvolvimento local? Lourdes Alves – Numa dimensão maior, o Brasil pode ter uma linha que conecta aos outros países da América Latina. É importante que metodologias de desenvolvimento possam ser disseminadas e compartilhadas na região e o Brasil, embora seja o único que fala português, tem uma condição de desenvolvimento que o coloca numa dianteira. Então, quando o Brasil lança a ideia e convida os vizinhos para olhar e pensar nessa possibilidade está ligando um fio condutor aos outros. E o Senac tem, por várias razões, feito contatos com outros países em projetos e cada vez mais a ideia de que temos que fortalecer essas ligações cresce. O País já tem vários exemplos, o próprio Senac no Estado de São Paulo, que podem ser observados pelos vizinhos da América Latina e talvez sirvam de inspiração para eles. Não significa que ao convidá-los para fazerem uma capacitação eles devam necessariamente desenvolver esta metodologia, significa que estamos abrindo espaço de diálogo com esses países, significa mostrar uma boa vontade de que podemos e queremos compartilhar saberes. E se deu certo aqui, talvez possa dar certo lá. Esse é um desejo, um querer. Se eles toparem, a partir dessa capacitação, fazer uma experiência de forma que a gente possa acompanhar e compartilhar seria fantástico e isso fortaleceria as ações que fizemos no Brasil. Se por exemplo, o Chile, o Uruguai abrissem espaço para fazer a sua experiência de desenvolvimento local com essa metodologia, que é bastante simples em termos de processo. O que a gente tem de grande desafio é a mudança de paradigma, na forma de pensar, de fazer e de viver. Caminhando para uma postura de horizontalidade, de participação, de equidade e de democracia, que também é muito novo, a vivência da democracia, pensar os processos conjuntamente, tolerar as diferenças e estar aberto para discutir até chegar a um consenso. Principalmente na América Latina. Nessa metodologia para a América Latina, considerando a nossa história de exploração, colonização etc., descobrir as conexões nos parece o ponto de partida, mas também o principal ponto que liga, religa e sustenta todo o processo.
Com a ampliação da atuação, existe a possibilidade de agregar elementos, ferramentas, passos novos à metodologia? Lourdes Alves – Ela seguramente não será modificada em função da relação com outros países e com o contato com outras metodologias. O que vai ser muito importante é que o Programa de Desenvolvimento Local para América Latina e Caribe possa ser um aglutinador dessas informações, desses conhecimentos. A gente espera que esse programa sirva como uma referência de desenvolvimento não só para o Brasil, mas para outros países em termos de estudos, pesquisas, textos, enfim, que possa ser uma referência para as pessoas que queiram saber que outras coisas estão acontecendo ou quais são os resultados de isso tudo que está sendo feito pelo Senac. O programa pode ser enxergado como um grande centro de estudo, de pesquisa, então tudo que for trazido em termos de contribuição, de experiência, fica disponível. Estamos fazendo um levantamento de organizações que atuam com o desenvolvimento local em toda a América Latina para estabelecer parcerias, relacionamento e permitir que este esforço se fortaleça também com o outro. É um pensamento em rede, tem que contar com todas as forças que estão disponíveis.
Saiba mais: Sobre a metodologia de Indução ao Desenvolvimento Local, clique aqui.
Para conhecer alguns locais em processo de desenvolvimento local com aplicação da metodologia do Senac, clique aqui.
|